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segunda-feira, 7 de junho de 2010

O nevoeiro :Um terror psicologico

Um representação da sociedade em um mercadinho.


É incrível como momentos de ócio podem trazer visões incríveis!Não,eu não estou usando drogas estou falando de uma sessão de filmes..
Estava assistindo ao Filme "O nevoeiro"(the mist Original) ,uma adaptação baseada numa história de Stephen King ,só ao saber isso já é motiva para voltar as atenções para ele (os viciados em filmes vão me dar toda a razão).

A história se passa na pequena cidade Maine
depois que uma violenta tempestade devasta a cidade , David Drayton - um artista local - e seu filho de 8 anos correm para o mercado, antes que os suprimentos se esgotem. Porém, um estranho nevoeiro toma conta da cidade,Vários pessoas,com pensamentos,valores, ideias e crenças completamente diferentes com uma fanática religiosa,um pai dedicado,um forasteiro cético,um motoqueiro rock'n roll ,etc...E não demora muito para as mesmo perceberem q estão pressa no mercadinho ja que o nevoeiro que as abriga criaturas mortais que matam,devoram e estraçalham qualquer um q tente sair.


E é ai que o terror começa,as ameaças vem de todos lados não só das criaturas misteriosas mas também das próprias pessoas ali presas
,ao tenta desvendar o mistério, o caos se instala e fica evidente que as pessoas dentro do mercado podem tornar-se tão ameaçadoras quanto as criaturas do lado de fora.Como o próprio encarte do filme diz"O medo muda tudo"
Em momentos de alto nível de estresse, os personagens tentam recorrer à racionalidade, em meio a uma situação extremamente e distante de acreditar. É nessas horas que a irracionalidade distante de acreditar. É nessas horas que a irracionalidade toma conta.

Sem ter para onde correr ou pedir ajuda os habitante dessa micro sociedade passa agir por conta própria com suas leis e regras particulares onde as antigas ideias de bem e mal desaparecem e a moralidade acaba sendo substituída por uma luta por poder,territorialismo e religião.E a situação se torna mais tensa no momento em que fanática religiosa
Mrs. Carmody se torna uma espécie de líder nessa TRIBO onde passa a ser juíza,profeta, policia e detentora de todas as decisões e em minha opinião,a questão religiosa acaba sendo o pilar principal e mais importante do filme e é o que noto nesse dialogo

"As pessoas são boas, decentes. Meu Deus, somos uma sociedade civilizada", diz a mocinha.

"Claro. Contanto que as máquinas funcionem e o 190 atenda. Tire isso, deixe todo mundo no escuro e assustado e as regras se vão. As pessoas vão recorrer a quem quer que ofereça uma solução. Somos fundalmentamente insanos como espécie. Coloque gente suficiente num quarto e é só uma questão de tempo até cada metade começar a imaginar maneiras de matar a outra por que acha q inventamos a política e as religioes?", respondem os pessimistas (ou seriam realistas?) mocinhos.

O filme é uma otimo adaptação de king ,coisa rara nos dias de hoje, e é muito bom para quem gosta de ler nas entrelinhas uma otima representação do comportamento humanos a psicanálise e psicologia comportamental tem muito explorar.Tem um dos finais mais pessimistas e espetaculares que já vi nada de FINAL DE NOVELA DA GLOBO ainda bem...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Filme The Village (A Vila) visto sob os olhares Psicanlítico e Junguiano.







The Village ( A Vila ) 2004 - EUA

Direção: M. Night Shyamalan – Elenco: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver – Duração: 120 minutos –Gênero: Ficção/Suspense

No ano de 1897 uma vila isolada do restante do mundo é um lugar tranqüilo para se viver em comunidade e harmonia. Entretanto, para se viver tranquilamente, os moradores não entram na floresta onde vivem as criaturas chamadas “Aqueles de Quem não falamos”. O terror que as criaturas despertam na comunidade é o suficiente para manter os moradores afastados. Mas a pergunta é: até quando? O jovem Lucius Hunt (Joaquin Phoenix) solicita aos responsáveis pela vila que ele possa ultrapassar os limites da floresta em busca de remédios para as pessoas, pois um de seus amigos morreu e ele se sente um pouco impotente em não fazer nada. Porém, ele é informado pelo líder Edward Walker (William Hurt) e por sua mãe Alice (Sigourney Weaver) que ele não deve se aventurar. Entretanto, ele não desiste fácil de sua idéia. Apaixonado por Ivy Walker (Bryce Dallas Howard), Lucius também é amigo de Noah Percy (Adrien Brody), um jovem com problemas mentais que também ama Ivy , o que colocará em risco a vida de Lucius e Ivy. Desta forma, Ivy terá que fazer um grande sacrifício, no qual as verdades serão trazidas à tona.


Psicanálise explica ¹

O filme trata da história de nove pessoas que resolveram se afugentar do mundo urbano devido à violência dor, sofrimento e toda a falta de esperança que os grandes centros nos trazem. Juntos eles fundam um vilarejo no qual criam suas famílias isoladas de qualquer contato com o mundo externo.
Para manter o isolamento, esse grupo, chamado pelos habitantes da vila de “Os Anciões”, cria uma lenda sobre monstros que habitam a floresta que cerca o vilarejo. Todos os que entrarem na floresta serão mortos pelos seres chamados “Aqueles de quem não mencionamos”

Porém algo acontece no vilarejo que ameaça a manutenção da vila. Um jovem chamado Lucius Hunt, um corajoso rapaz que desejava passar pela floresta e ir as cidades em busca de remédios para seu povo, é atacado por outro rapaz com problemas mentais chamado Noah Percy, motivado por ciúmes de seu casamento com Ivy Walker.

A grande questão agora para o pai de Ivy, o Líder dos Anciões, estava entre salvar a vida de Lucius, permitindo que sua filha, deficiente visual, fosse até a cidade buscar remédios, ou manter a mentira sobre a vila, sacrificando assim a vida de Lucius.Mas o Sr. Walker não resiste ao amor da filha por Lucius e permite que a mesma vá à cidade e busque remédios. Antes ele conta toda a farsa sobre a história dos monstros, mas não adianta, por que Ivy ainda continua acreditando na existência de monstros. Durante sua caminhada, Noah encontra uma das roupas de monstro, e vestido nela, ele ataca Ivy na floresta, mas ela consegue matá-lo, achando assim que matou um dos temíveis monstros.

Ivy retorna da fronteira da floresta após encontrar um guarda que lhe fornece os remédios. Na verdade, os guardas da floresta são empregados das empresas Walker, e a floresta toda é propriedade do pai de Ivy, mas ela não sabe porque não pode ver. Ela retorna ao vilarejo e assim a vida na vila continuará a mesma.

O filme retrata o medo pelo desconhecido e o estabelecimento de defesas internas que as pessoas criam para perpetuar um sentimento de “segurança”. Podemos perceber que o enredo do filme mostra como os personagens se isolam em um mundo de “fantasia”, descrito por Freud em seu artigo “Para Além do Princípio de Prazer” como um mecanismo que leva o sujeito a negar a realidade que seria na verdade uma evitação do desprazer que o levaria a viver de acordo com o “Princípio da Realidade”.


Percebemos que há uma tentativa de “fuga” do mundo real, com o objetivo de manter a ordem no mundo interior, o que leva a instalação do “recalque”, onde barreiras são formadas como forma de se estabelecer a ordem nesse mundo do inconsciente. Essas barreiras são simbolizadas pelas florestas em redor da vila, pela instalação do medo do desconhecido, das criaturas descritas como “Aqueles de quem não mencionamos”.

Estão presentes no filme sintomas de experiências traumáticas que levam as pessoas a estabelecerem uma relação de “desconfiança perante a vida”, levando-as a quererem se esconder de tudo que causa desprazer.

Porém o inconsciente busca maneiras de romper essas barreiras. Ele nos incomoda, transgride as regras e encontra formas de nos empurrar “para fora da vila”. Esse inconsciente é tipificado no filme pelo personagem Noah, um homem com a mentalidade de uma criança de cinco anos que não aceita regras e é extremamente desobediente, pois com freqüência ele adentrava a floresta sem medo das criaturas.

Um evento inesperado gera uma crise na vila, quando o personagem Lucius é ferido por Noah e precisa de “remédios”. Uma decisão precisa ser tomada: ou deixamos Lucius morrer ou nos arriscamos e saímos da vila, enfrentando os medos. Será que o personagem Lucius não representa uma vontade de ir mais além, de quebrar as regras, os recalques que nos impedem? Somente quando esse “Lucius” que está dentro de nós manifesta sintomas de morte é que corremos em busca de remédios.

As crises instaladas em nosso interior provocadas pela depressão, ansiedade, transtornos obsessivos, pânico colocam em risco o “Princípio de Vida” e nos colocam diante de uma escolha: ou morremos ou nos aventuramos “cegamente” no interior da floresta. Não seria a personagem Ivy um retrato do desejo de se ver livre do medo? Para vencê-lo é preciso encará-lo. Mas como encarar aquilo que está no nível do inconsciente?

Mesmo sabendo que ela não poderia ver os “monstros” da floresta. Mesmo sabendo que eles não eram reais, pois seu pai havia contado a ela a respeito da farsa, ela ainda assim sentia a presença desses monstros. Não seriam esses monstros uma figura das percepções equivocadas que nosso aparelho psíquico faz a cerca dos eventos? Entendemos que não são reais, porém não conseguimos evitar as emoções negativas que eles provocam.

Concluindo, é preciso ter coragem para entrar na floresta, assim como é preciso ter coragem para entrar em processo de análise. Quando iniciamos um processo de análise entramos cegos. Não enchergamos o que há na floresta. Aos poucos as resistências vão caindo até conseguirmos a atravessá-la por completo, o que muda nossa percepção acerca da vida. O medo nunca desaparece por completo, porém entendemos que ele não é real e que é possível vencê-lo todas as vezes que ele se manifesta em nossas vidas.


Sob o olhar Junguiano ²

Este filme reflete a tendência comum do ser humano em tentar encobrir o mal, negando, escondendo, fugindo e ocultando-o como um segredo.No filme, a vila é uma tentativa de criação de um local, um mundo ou uma realidade sem maldade, sem distorções, onde somente o bem e a inocência tenham lugar, como um oásis no meio de um deserto, um lugar puro em meio à feiúra do mundo e da realidade humana.

Segundo Jung, tudo que negamos em nós, coisas boas e ruins, viram nossas sombras. Afirma também que é da natureza humana termos múltiplos aspectos polarizados e contrários. Tendemos em nosso dualismo negar o mal em vez de transformá-lo e integrá-lo. Desta forma, escondemos este nosso aspecto como um segredo que deve ser escondido a sete chaves, já que o tememos e sentimos dele vergonha.

Temos vergonha exatamente do que nos faz humanos. Ter o mal dentro de si não significa que tenhamos que atuá-lo ou usá-lo de forma destrutiva. Ao aceitar que isto é uma característica humana, podemos trazer às claras este aspecto, diminuir sua força e ter alguma escolha sobre ele. Aceitar sua existência sem negá-lo ou escondê-lo traz para nós força e coragem, escondê-lo gera medo e fraqueza.

Há linhas de psicoterapia que trabalham com estes aspectos sombrios quando necessitamos de ajuda externa. Mas procurar estar na verdade e termos a coragem de olhar e reconhecer nossas distorções sem culpa é algo que todos podemos fazer e é uma ação realista que nos fortalece.

Quantas pessoas, famílias, grupos, comunidades e sociedade são enfraquecidas pelos seus segredos. Os segredos geram pensamentos, mentiras, contaminam a confiança entre pessoas e a própria autoconfiança. Há um grande alívio quando nos liberamos do cárcere de nossos segredos e isto nos torna mais honrados .

A nossa honra está em sermos íntegros e verdadeiros, mesmo que falhos e humanos. Nossa honra não está na aparência e em nosso anseio de perfeição. No filme, um dos “anciãos” conclui: “perdi lá fora um familiar e aqui já perdi vários. Aprendi que o sofrimento faz parte da vida.”

Na “vila”, criaram uma realidade a parte, sustentada pelo terror e mentira com o intuito de encobrir a realidade comum e se afastar de uma sociedade violenta. Criaram uma comunidade “pura” e “inocente”, onde seus habitantes são humanos e imperfeitos, onde mais cedo ou mais tarde, o crime brota como uma realidade não transformada no coração e atos dos homens.

É mais fácil escravizarmo-nos do terror de um monstro externo que se perpetua na ignorância que enfrentar o “monstro” interno que poderia ser transformado. Ninguém precisa aceitar ou gostar da violência social e nem se adaptar a ela como algo desejável ou comum. Mas queiramos ou não a violência social é um reflexo de seus membros. A violência externa é o resultado da violência interna não transformada. Mas como transformar a violência interna sem aceitar sua existência como uma realidade humana? Como transformar a violência externa sem aceitá-la como fruto da “doença” individual de todos os seus membros e não de somente uma parte que tem que ser excluída, banida e castigada? Podemos até procurar proteção criando condomínios fechados, altos muros e fortalezas para nos afastarmos do fruto que nós mesmos ajudamos a criar. Mas levamos o inimigo dentro de nós para dentro da fortaleza, já que é parte de nossa natureza humana.

Como fortalecer o amor e a inocência em meio à mentira? Como preservar a inocência e proteção de nossos filhos sem ensiná-los a lidar com suas próprias destrutividades internas? Quanto tempo podemos afastá-los ou apartá-los do perigo, isolando-os da realidade humana à qual pertencem?

Por fim, o filme mostra uma saída no amor, que move montanhas, na cegueira que enxerga com os olhos da sabedoria dos sentimentos, e da coragem que se fortalece não no aparente bom senso, mas no ato humano de fazer o que tem que ser feito para preservar a vida digna sem medos.


Trailer


















quarta-feira, 26 de maio de 2010

Laranja Mecânica (Clockwork Orange)


(Antonio Carlos Seidl – Jornal "Folha de São Paulo", 1992)

Laranja Mecânica (1971)

O diretor norte-americano Stanley Kubrick encontrara no romance futurista homônimo de Anthony Burgess o substrato para revisitar o grande tema de sua filmografia, que não chegava ao nono título. Toda a obra madura de Kubrick discute "das Unbehagen in der Kultur", "o mal-estar na civilização". (Título de livro de Sigmund Freud)

Muita gente cita o filme "Laranja Mecânica" para falar mal do Behaviorismo Radical.

Ledo engano! Na verdade as atrocidades do filme só ocorrem porque não tem nada de Behaviorismo Radical nele!

O filme, que é o meu favorito do diretor Stanley Kubrick e já assisti mais de 20 vezes, é baseado em um romance cyberpunk do inglês Anthony Burguess. O protagonista é Alexander De Large, um delinqüente de 16 anos que para sair do presídio (preso por homicídio) topa fazer parte de uma experiência científica na qual será transformado em uma "pessoa boa".

A experiência consiste em um procedimento de condicionamento clássico, pavloviano. Através de bizarras sessões (usando filmes, drogas e outros recursos desumanos) Alex é condicionado a responder com fortes náuseas à violência. Assim, toda vez que ele vê violência ou vai agir de forma violenta, cai no chão, sem poder fazer mais nada. Ele não escolhe "ser bom": é apenas impedido (por punição) de "ser mau". (Questão ética aí, não?)

Uma prova de que o experimento nada tem de Behaviorismo Radical é que o cientista responsável é um tal de Dr. Brodski. Já pelo nome podemos ver se tratar de um (reflexologista) russo, e não um (behaviorista) norte-americano. A prova final de que faltou uma visão beheca está no fato de que Alex, após o aparente sucesso do experimento, é lançado ao mundo sem emprego, sem amigos e sem família., sem assistência alguma! Ou seja, os cientistas russos entenderam que alterado o organismo tudo estava resolvido, e não se deram conta que o condicionamento de Alex não duraria pois ele seria lançado em um ambiente hostil e sem ninguém para orientá-lo.

"Laranja Mecânica" é na verdade uma crítica a sociedade que controla pela punição e não enxerga o indivíduo em sua singularidade. (Tudo que Skinner também é contra em sua proposta filosófica).

Kubrick procura examinar sob um ponto de vista freudiano histórias com potencial mitológico que tratem de personagens desajustados dada a inescapável repressão instintual exigida pela vida em sociedade. (Vide "Lolita", "O iluminado", "Nascido para Matar").

Mesmo quando este tema não é dominante, como em "Doutor Fantástico" ou "2.001, uma Odisséia no Espaço", é ele que sustenta a discussão kubrickiana, seja da paranóica corrida nuclear ou do futuro da humanidade diante do avassalador progresso tecnológico, respectivamente. Assim como o filme "Nascido para Matar", "A Laranja Mecânica" é uma típica versão cinematográfica do "Bildungsroman", o tradicional romance de formação alemã que acompanha o processo de educação moral e intelectual de um jovem, lapidando-o para o convívio social.

Kubrick, aproveitou esta conhecida estrutura narrativa para aplicá-la a seu modo. Assim, em "Nascido para Matar" assiste-se a mais cruel educação para o assassínio dos jovens "marines" americanos que vão lutar no Vietnã. Já em "A Laranja Mecânica, o processo de domesticação tem um objetivo diverso.

O protagonista Alex (Malcolm MacDowell) é um jovem que teria atingido a alvorada da idade adulta ainda com sua arquitetura psíquica infantil intocada, em estado bruto, o que implicaria a plena liberdade para a expressão de seus instintos. Isso seria uma virtual impossibilidade psicológica, pois as – por assim dizer – forças civilizatórias já se apresentam atuantes desde a mais tenra idade, mas ficção é ficção e assim prossigamos.

A primeira parte do filme nos mostra, numa Inglaterra futura, Alex e sua gangue de boçais espancando um velhote bêbado, drogando-se, violentando uma mulher depois de aleijar seu marido escritor, assassinando a 'mulher gato'.

Com isso, Alex satisfaz amoralmente seus instintos sexuais e de destruição. Sua prisão após o último crime será uma espécie de segundo parto. Depois de tranqüilos dois anos de cárcere, Alex se candidata a um novo método de condicionamento psicológico que regeneraria definitivamente os criminosos, devolvendo-os pacificados ao convívio social (Método Ludovico).

Para Alex, seria este uma espécie de supletivo no princípio da realidade. Mas o experimento behaviorista erra na dose, substituindo a absoluta liberdade instintual pela completa repressão. Violência e sexo passam a provocar vômitos e náuseas em Alex, que se descobre paralisado, desumanizado como uma laranja mecânica. e io que vema ser laranja mecância? segundo Anthony (o autor): "...O ser humano é dotado de vontade. E pode usá-la para escolher entre o bem e o mal. Se só pode fazer o bem, ou só pode fazer o mal, é uma laranja mecânica - significa que tem aparência de um organismo adorável, com cor e suco, mas que na realidade é um brinquedo mecânico para ser manipulado por Deus ou pelo Diabo ou (que o está substituindo cada vez mais) o todo-poderoso Estado. É tão inumano ser totalmente bom quanto totalmente mau. O importante é a escolha moral. O mau tem que existir junto com o bem, de modo que a escolha moral possa existir."

Aproveitando-se desse novo estado, suas vítimas se vingam das cruezas pretéritas e Alex é resgatado de uma tentativa de suicídio por aqueles que o usaram como cobaia _ lembrar do desvairado viúvo paraplégico, rs...

A mais rotineira interpretação de sua "cura" final, assinada entre outros pela ácida Pauline Kael em "The New Yorker", vê Alex voltar a ser o mesmo delinqüente do início, com a diferença de contar agora com a proteção de poderosos padrinhos (o governo inglês, representado pela figura do Ministro do Interior).

Sua violência foi, para usar as palavras de Freud "suplantada pela transferência do poder a unidade maior, que se mantém, unida por laços emocionais entre os seus membros" (em "Por que a Guerra? Carta a Einstein").


Alex aderiu ao essencial pacto civilizatório e a prova disso é que seus devaneios pós-recuperação remetem a uma prática sexual sadia e socialmente aprovada (ele se imagina fazendo amor com uma mulher sob os aplausos de uma multidão).

Pauline Kael também criticou Kubrick por ter "assumido a perspectiva deformada e hipócrita de um jovenzinho depravado". Eis outra observação apressada e superficial. Kael confundiu o narrador do filme (e do livro ) com um pretenso "alter-ego" ou porta-voz exclusivo do autor.

Kubrick "fala", naturalmente, através do filme como um todo, do conjunto dos personagens, e se tivéssemos que apontar algum porta-voz, seguindo suas próprias palavras, teríamos que destacar o capelão do presídio. É ele quem alerta expressamente para os riscos de se tentar eliminar a possibilidade do homem exercitar seu livre-arbítrio, questão apontada por Kubrick como central em suas preocupações. É um "grito" frente ao abuso cometido por um governo generalizador. Behaviorismo? Por que?

Mas a sempre perturbadora Kael foi voz dissonante quando do lançamento de "A Laranja Mecânica". Kubrick jamais conheceu êxito crítico igual. Houve, contudo, também quem considerasse sue filme uma diluição comercialesca do livro de Burgess. Por certo Kubrick não foi tão original quanto Burgess ao tratar de sua própria arte. Este criou no livro um vocabulário sincrético para a gang de Alex, que faria inveja a James Joyce. O próprio Kubrick reconheceu que sua versão cinematográfica resultou formalmente mais conservadora. Mas equiparar seu filme a qualquer caça-níqueis hollywoodiano com maquiagem futurista é uma estultice. Basta repara a imperturbável organicidade dos elementos ultraestilizados de "A Laranja Mecânica" (décor asséptico, tipos cartunescos, cenas coreografadas, etc.) para que se perceba o raríssimo domínio completo que Kubrick tem sobre seu ofício.

Mesmo não sendo este seu melhor filme, sobretudo por problemas de ritmo devido á excessiva duração, encontram-se aqui inúmeros momentos que se fixam perenemente à memória – como o estupro ao som de "Cantando na chuva" e o bacanal ao som da abertura do "Guilherme Tell" de Rossini. São peças com lugar obrigatório dentro do museu imaginário de todo cinéfilo. De quantas cenas rodadas deste então podemos dizer o mesmo? (Amir Labaki – "Folha de São Paulo", ano 1992)



Uma explicação para a atração duradoura de "Laranja Mecânica" é a contemporaneidade intelectual dos temas de que se ocupa. A violência deliberada, a máquina estatal que prefere submeter seus delinqüentes a lobotomia do que lhes permitir o direito de escolha. Os jovens que usam drogas para se prepara para um noite de estupro e pilhagem. Uma sociedade que cura a violência através da criação de robôs morais.

Segundo Ron Daniels, que dirige peças de Shakespeare, "A Laranja Mecânica" não é pior do que de Hamlet ou Macbeth. "A peça é uma história admoestatória de uma sociedade que não cuida de seus jovens e não lhes deixa se expressar. É uma fantasia de liberdade, de uma liberdade pavorosa, é uma fábula de retribuição.

O Alex no início é um tipo de Lúcifer, solto num inferno urbano. Ele não sente culpa, não tem escrúpulos nem remorsos, mas como ele mesmo diz, tem que ser destruído. Mas nós respondemos a ele numa maneira ambivalente, achando-o atraente mesmo quando ficamos revoltados com as coisas que ele faz", diz Daniels.

Burgess na apresentação de "A Laranja Mecânica" no palco como peça teatral afirma: "o que parece como uma celebração da violência, pior no palco do que no livro ou filme de Kubrick, inexplicavelmente proibido na Grã-Bretanha, é realmente uma investigação da natureza do livre arbítrio. É um drama teológico.

Quando os seres humanos são impedidos de praticar atos de perversidade eles também são incapazes de desempenhar atos de bondade. Isso porque ambos dependem do que Santo Agostinho chamou de liberum arbitrium – livre arbítrio". Burgess diz que com esta versão teatral e com o filme será acusado de promover a violência entre os jovens .

"Um homem que matou seu tio responsabilizou Hamlet de Shakespeare. Um menino que arrancou os olhos de seu irmão culpou uma edição escolar de Rei Lear. Os artistas literários são sempre tratados como se tivessem inventado o mal, mas sua verdadeira tarefa, uma das muitas, é mostrar que o mal existia muito tempo antes que pudessem segurar sua primeira caneta ou usar seu primeiro word processor. Se um escritor não contar a verdade é melhor que não escreva".
(Antonio Carlos Seidl – Jornal "Folha de São Paulo", 1992)